sábado, 20 de março de 2010

DIÁRIO ENCARTADO - PARTE 2/5

"Junho de 1993. Querido avô, por algum período eu precisei trabalhar dois turnos para conseguir pagar a minha faculdade e, graças à sua ajuda, realizei meu sonho e hoje sou um bacharel. Tenho um bom emprego, comprei o carro dos nossos sonhos, um Maverick 1977 V8 Vermelho. A reforma dele fica pronta agora no final do mês. Passo aí na sua casa para darmos umas voltas pela cidade. Fique com Deus. Arthur."


"Julho de 1993. Querido avô, este final de semana é o da exposição anual de arrancadas e adivinha quem vai estar lá? O senhor, acompanhado da Dorothy. Ela foi selecionada, será o destaque da prova principal. Será uma grande honra o senhor inaugurá-la para mim. Ficaremos hospedados com tudo pago. Seu neto só te leva pra boa, não? Feliz aniversário. Beijos, Arthur."


"Agosto de 1993. Querido avô, não sei como o senhor não sabia da minha formatura, do meu carro, da nossa competição, do nosso sonho. Estou novamente enviando-lhe uma carta, desta vez como um pedido de desculpa. Espero que esta não chegue também. Ou que chegue, e o senhor possa retirar tudo o que foi dito no seu jantar de aniversário. Eu apareci lá sim com cheiro de óleo, com macacão, e com o troféu. E não foi como afronta, foi como um presente para o senhor, já que não pode comparecer à corrida. Desculpe pelo desabafo. Te amo. Arthur."


"Setembro de 1993. Querido avô, acabei de saber que a empresa em que trabalho, faliu. No final do mês estaremos todos despedidos e comecei a sentir a gastrite novamente. O ruim é a dor e o incômodo que ela causa, a parte boa é que ela sempre para de doer, nem que seja por pouco tempo. Amanhã vou levar a Dorothy para conhecer a nossa velha estrada. Tentei te ligar o mês inteiro. Te amo, Arthur."


"Outubro de 1993. Querido avô, estou de mudança. Resolvi buscar um mercado de trabalho mais consolidado, não batalhei tanto para acabar me rendendo aos concursos públicos. Em quinze dias, estarei recomeçando minha vida, em outra cidade. A Dorothy vai ficar com meu irmão enquanto eu me acerto e alugo um cantinho pra mim. Ou não. Gostaria que tivesse vindo ao meu aniversário, no sábado passado. Te amo. Arthur."


Ainda tremulo virei outra página e, antes de começar a ler, suspirei encarando aquele rosto ainda confusamente familiar. Notei uma lágrima que, antes de lhe escorrer toda a face, foi suavemente secada com um lenço. Hesitei por um momento, mas prossegui.


"Dezembro de 1993. Querido avô, esse será o meu primeiro natal longe da família. Gostaria de estar aí na hora do discurso, na hora do amigo secreto, na hora de brigar pelas duas coxas do chester, na hora de ganhar o afago e o esporro nosso de cada natal. Tenho me virado bem aqui. Estar longe não significa estar sozinho, pois trago os ensinamentos e os momentos que passei com cada um. Cada momento. Feliz natal. Mande lembranças á Dorothy, meu irmão deve levá-la para a festa. Um grande beijo, Arthur.


"Janeiro de 1994. Querido avô, estar numa cidade litoranea é como sentir o cheiro da comida do vizinho: você sabe que não pode, mas morre de vontade de ir lá se esbaldar. Aprendo a contentar-me com a brisa e com o estilo de vida, enquanto procuro emprego fixo. Aprendo sobre a saudade, sobre a vida. A distância tem feito uma faxina em minha cabeça, relembro cada momento de minha vida. Funciona como uma televisão, vou mudando de canal procurando algo interessante e vendo pequenos fragmentos de cada momento. O curioso é como ele tende a se juntar e formar mais amor. Ando melancólico. Já conheceu a Dorothy? Beijos, Arthur."


Neste momento, nossos olhares se cruzaram. Antes que ele pudesse falar algo, entreguei-lhe o diário. Não tive como não reparar a atenção que ele deu para cada detalhe do diário, com acabamento artesanal. Não tinha mais clima para trabalho, saimos para almoçar.


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